A arte é bela e a vida sem ela não tem sentido! Existe sensação melhor do que criar?
Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
Ensaio sobre o Ensino das Artes

                        Nos últimos anos temos ouvido falar sobre a pertinência do ensino das artes (educação visual, desenho ou mesmo geometria descritiva) e as opiniões são díspares, mesmo entre a comunidade docente. Para que servirá realmente o ensino artístico numa sociedade em que as ciências e as letras são dominantes? Serão mesmo necessárias as artes? Será o seu ensino uma perda de tempo e de dinheiro dos contribuintes? Na minha opinião, e como tentarei demonstrar a seguir, as artes são fundamentais em qualquer sociedade.

                Há milhares de anos atrás os nossos antepassados sentiram necessidade de comunicar e decidiram faze-lo através de desenhos, riscos, pinceladas e dedadas nos mais variados suportes, mesmo antes de haver escrita. Será que o faziam porque tinham demasiado tempo livre ou porque faz parte da natureza humana ser criativo? As opiniões dividem-se sobre a função de muitas das pinturas e gravuras rupestres, uns falam sobre a sua função mágica, mas outros referem que o homem as realizava quando estava bem alimentado e que tinham acima de tudo uma função expressiva.

                Tudo o que existe à nossa volta tem a “mão” de um artista, desde a simples cadeira até à confortável roupa que temos vestida. Então será assim tão supérfluo o ensino artístico? Será assim tão dramático um filho querer seguir artes?

Nos Estados Unidos da América o President’s Committee on the Arts and Humanities (1995) efectuou um relatório onde referia que o ensino das artes produzia um efeito benéfico na aprendizagem da totalidade das disciplinas. Este facto é um pouco discutível (Studio Thinking, 2007), mas a verdade é que muitas vezes se verifica esta tendência. Mas a questão de fundo é que os alunos das artes são tendencialmente mais tolerantes, humanamente mais ricos e mais interessados no mundo que os rodeia. Obviamente que nem todos os alunos de Educação Visual se vão tornar artistas plásticos, mas é importante que sejam futuros adultos ricos de espírito, de compreensão e que consigam usufruir da arte e da cultura em geral. Imaginemos como seria maravilhoso viver numa sociedade em que todos ouvíssemos Bartok ou contemplássemos Duchamp ou Hockney, ou ainda que assistíssemos e entendêssemos um bailado de Raimund Hoghe. As artes levam as crianças a estarem atentas à expressividade do ambiente, aos produtos da sua própria imaginação e a trabalhar os materiais de modo a que eles expressem e evoquem sentimentos (Eisner, 2002). Também no plano técnico o ensino das artes é fundamental, pois vai treinar a motricidade fina e ampla, o gesto, a ter a noção de espaço, a conhecer as cores e a sua aplicação, etc. Mesmo os alunos que não pretendam prosseguir os estudos têm necessidade de conhecimentos básicos de desenho, como o carpinteiro que desenha os móveis ou o pedreiro que precisa interpretar as plantas desenhadas pelo arquitecto. As nossas empresas cada vez mais têm a necessidade de inovar, para combater a concorrência dos países em vias de desenvolvimento, e para isso precisam de designers e artistas que criem novas soluções para produtos, embalagens, imagens de marca, etc. Até os cientistas precisam de artistas (escultores e pintores) que lhes façam modelos bi e tridimensionais das suas descobertas (ex. modelos de combinações atómicas). A arte é a representação, a ciência a explicação – da mesma realidade (H. Read, 1943).

                Portanto as artes são um forte complemento das ciências e das letras, pois permitem aos alunos uma alocação de recursos/competências tais como: o trabalho de equipa, a pesquisa e a comunicação de informação, aprender a utilizar sistemas que se tornam gradualmente mais complexos e a utilizar tecnologias (J. Kendall, 1996).

                Se chegamos à conclusão de que o ensino das artes é fundamental, devemos reflectir sobre a forma como nós, docentes, o ensinamos e como os pais/encarregados de educação pensam em relação a esse ensino. Tradicionalmente o ensino da Educação Visual centra-se num conjunto de exercícios, muitas vezes sem ligação entre si, que são impostos aos alunos, pois “os programas têm que ser cumpridos e os conteúdos dados”. Ora o programa de E. Visual é bastante vasto e flexível, o que permite aos docentes e alunos realizar actividades realmente motivantes, interessantes, com alguma relação com o mundo real e com os interesses individuais de cada aluno. Muitos de nós, professores das artes, preocupamo-nos com resultados (trabalhos bonitos e “bem feitinhos”), mas será isso o mais importante? Não deveria haver uma reflexão com os alunos sobre os trabalhos, de modo a que eles entendam o que estão a fazer e qual a sua aplicação? É relativamente fácil ensinar um aluno a criar pinturas ou desenhos bonitos que vão impressionar toda a comunidade escolar, pois existem métodos que nos permitem contornar as dificuldades técnicas. Mas a educação artística e a arte são algo mais do que resultados finais, têm a ver com reflexão e com o processo de trabalho. É importante ensinarmos os nossos alunos a pensar, senão os seus trabalhos não serão mais do que reproduções de uma ideia planificada pelo professor. Temos de “dar ferramentas” aos alunos para que eles sejam futuros adultos competentes, com individualidade e seres socialmente integrados e não estarmos apenas preocupados em cumprir programas.



publicado por miguelfazenda às 13:41
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